Pernambuco

OPINIÃO

Artigo | O futuro não demora, estamos preparados?

A pandemia foi apenas um propulsor do debate sobre a tecnologia nas nossas vidas

Brasil de Fato | Recife (PE) |
Precisamos atuar para que a juventude tenha formação criativa, inovadora, dada a velocidade e a diversidade das necessidades da Revolução 4.0 - AFP

Era muito comum quando pensávamos no assunto da tecnologia e sua diversidade de possibilidades como algo muito distante da realidade concreta para maioria dos brasileiros. Parece que durante esse período de pandemia esse cenário vem mudando, por conta das novas necessidades que vem surgindo na vida das pessoas e consequentemente, para o mundo do trabalho. A preocupação constante de como sobreviver diante de uma política de Estado que tira os direitos, principalmente dos que mais precisam, dá pouca abertura para acompanhar o novo cenário no mundo do trabalho que vem sendo desenhado por conta da grande demanda no setor tecnológico, fortalecendo ainda mais a chamada 4ª Revolução Mundial, que irá tirar uma grande parcela da população dos seus postos de trabalho, sendo substituídas por códigos, softwares e máquinas. Dessa forma, precisamos compreender como vem sendo construído esse cenário de perspectivas profissionais, bem como os impactos para a classe trabalhadora nesse novo cenário mundial.

Durante esse processo de isolamento social, é fato que a tecnologia se tornou um assunto corriqueiro, pois é através dela que muitos trabalhadores não foram demitidos por poder trabalhar de forma remota. Isso possibilitou que empresas não fechassem por utilizar de sistemas de vendas online e parece também estar unindo às famílias, os amigos e pessoas queridas e próximas. Mas, por outro lado, há debates sobre a Educação à Distância e modalidades remotas que vem dividindo opiniões. Essas questões trouxeram esse tema para a centralidade de muitos debates e nos levam a refletir como seremos depois desse período de pandemia, que dificilmente nos permitirá voltar às referências sobre o que e quem éramos, pois, a utilização da tecnologia em diversos setores passou, mais que nunca, a ser um debate essencial no nosso tempo, mas ela vem se consolidando e abrindo uma diversidade de possibilidades já há alguns anos.

Revoluções industriais e emprego

Para adentrar nesse assunto, é fundamental primeiramente rememorar alguns anos atrás, no século XVIII, durante o período da Revolução Industrial capitalista, período no qual os humanos foram substituídos pelas máquinas em trabalhos de baixa qualificação. Nesse período histórico de transição os trabalhadores rurais, que representavam 80% do mercado de trabalho na época, saíram das terras para apertar parafuso nas grandes fábricas, como ilustrado por Charlie Chaplin no conhecido filme Tempos Modernos. A substituição do trabalho manual por máquinas fez com que houvesse a produção em série, mudando a realidade do trabalho e do mundo. Como efeito, gerou também um problema significativo para os trabalhadores, como as demissões em massa pela falta de qualificação para o trabalho industrial.

Nos tempos atuais, há o que chamamos de 4ª Revolução Mundial, por conta da tecnologia digital, prestes a mudar a realidade de todo o mundo. Nesse momento que estamos sujeitos à pandemia do Coronavírus a abertura da década de 2020 tende a tornar esse processo ainda mais acelerado. Assim como aconteceu no século XVIII, os problemas provavelmente serão os mesmos, mas, dessa vez mais profundos, por conta do elemento da globalização presente no nosso tempo, que torna tudo mais acelerado e é exatamente por causa disso que devemos nos apropriar do que vem sendo construído, planejado e reivindicado para os próximos anos no Brasil e no mundo.

 Não é novidade que a tecnologia está moldando o mundo em que habitamos e nos projetando para um futuro muito pouco previsível. Mas a maioria das pessoas não faz ideia dos efeitos da dimensão dessa ruptura tecnológica nas nossas vidas e de sua intensificação nos próximos 10 a 20 anos. A inteligência artificial, por exemplo, tende a excluir milhares de pessoas para o mercado de trabalho a escala global. Podemos nos recordar na história das demissões em massa de profissões que foram extintas por conta do trabalho substituído por novas tecnologias.

A verdade é que a substituição de pessoas por robôs e softwares para aumentar a produtividade e minimizar os gastos é uma consequência inerente a revolução tecnológica digital. Segundo a Universidade de Oxford, 47% dos trabalhos vão desaparecer nos próximos 20 anos, e não só motoristas de ônibus, como também médicos e professores também estão na lista. Algumas experiências mundiais hoje assustam como o fato de sites americano que recebem mais consultas que os médicos nos hospitais e consultórios; escolas caríssimas com experiências canadenses no Brasil tendo aula de códigos desde o ensino fundamental; o Vaticano com um aplicativo para confissão; entre tantas outras experiências. E, nós, que queremos construir um novo e diferente mundo, como faremos para qualificar as pessoas que serão demitidas e inseri-las no novo mercado de trabalho se elas não tiveram oportunidade sequer de concluir seus estudos básicos?

Estamos caminhando para uma desigualdade jamais vista, onde os mais afetados serão as pessoas com baixa qualidade e baixo grau de estudo, em geral com baixa renda. A automatização é certa e a substituição de humanos por softwares será rápida, sobretudo em países mais desenvolvidos como Japão, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos. Estudos da empresa PWC feitos em Março, 2017 indicam que até um terço dos postos de trabalho nestes países podem ser ocupados por robôs até 2030. A perspectiva é confirmada também por pesquisas da IBM (International Business Machines Corporation), que projeta que mais de 7 milhões de brasileiros vão precisar de recapacitação nos próximos 3 anos.

No Vale do Silício, na Califórnia, é comum a defesa da ideia de uma renda mínima universal, que sustenta os excluídos pela tecnologia para que se mantenha o consumo girando. Essas ideias são defendidas por empresários como Mark Zuckerberg, dono do Facebook e Elon Musk, fundador da Tesla Motors. Mas ficam algumas dúvidas nessa proposta: Quem pagará a conta? Esse dinheiro sairá de onde? Dos impostos das grandes fortunas? O que seria essa renda básica universal?

Por outro lado, estamos vivenciando uma era no Brasil muito diferente dos últimos tempos, pois antes os profissionais de tecnologia se mudavam para o Vale do Silício porque não tinham emprego aqui no Brasil, hoje estamos vivenciando uma era de investimento intenso em alguns polos tecnológicos. Recife por exemplo, é um deles com o Porto Digital, que é um dos principais ambientes de inovação do Brasil, considerado pela Associação Nacional de Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), o melhor parque tecnológico do Brasil.

Perspectivas para o Brasil

 No Brasil, temos 11,6 milhões de desempregados, segundo o IBGE, ondde é indicado que esse número poderá saltar para 40 milhões de desempregados durante a pandemia. Na cidade do Recife foi registrado o maior índice entre as 27 capitais brasileiras, com 17,4% da população economicamente ativa em situação de desemprego, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada em julho de 2019 pelo IBGE. Ao mesmo tempo, o parque tecnológico terminou o ano com 11.000 profissionais empregados, e se prevê um crescimento que implicará na abertura de 3.200 novas vagas de emprego, previstas para 2020. Nesse cenário, está posto um desafio que é o da qualificação para responder às demandas tecnológicas dessa or​dem. ​É importante observar que mesmo Recife tendo um polo tecnológico reconhecido no Brasil, ainda assim a cidade passa por um processo sério de desemprego.

Diante das mudanças que se configuram de forma acelerada e irreversível, nos perguntamos se Pernambuco está preparado, ou se preparando, para acompanha-las. E, ainda mais, quem são essas pessoas que estão ingressando nessa área? como preparar, capacitar e desenvolver habilidades da classe trabalhadora contemporânea para esse futuro tecnológico e digital em meio a fortes presenças de resíduos históricos e estruturais que fortalecem um recorte de classe, gênero e raça? Anuncia-se que a educação é o principal caminho para esse desafio, pois a Revolução 4.0, suscita mudanças radicais que deslocam o mundo do trabalho, desafiando a educação básica e a fundamental para reformular sua pedagogia e as tecnologias do ensino e da aprendizagem.Jjá é bastante citado nas grandes empresas multinacionais que os profissionais do futuro precisam reforçar suas habilidades comportamentais. Os processos seletivos de empresas modernas já fazem a seleção dessa forma, já que apenas a técnica não é suficiente para as demandas apresentadas, pois a velocidade da mudança será tão intensa que não se terá como apenas saber da técnica, mas é preciso saber como desenvolver ela, para atender a demanda do mercado. As escolas, mais que nunca precisarão exercitar com os estudantes a lógica e a prática do pensar. As escolas ainda ensinam “o que”, e não “como” aprender. Com isso, lembramos dos ensinamentos de Paulo Freire, que no conjunto de sua obra nos ensinou tanto sobre decorar conteúdos, nomes e fórmulas de séries e disciplinas acumulativas que já não fazem sentido farão muito menos em poucos anos.

É irreversível esse novo cenário, e faz-se necessário que pensemos em como fazer com que esse processo de transição não seja de forma abrupta para a classe trabalhadora, não a colocando mais uma vez como mão de obra que sustente esse novo modelo de trabalho baseado no sistema do grande capital. Pensar em como o povo pode fazer criações e ações através de projetos que possibilitem capacitar essas novas formas trabalho onde aprendam a pensar de forma crítica, formular sistemas, criar códigos, robôs e máquinas que estejam a favor da demanda do povo seria de fato, um grande desafio.

Com isso, precisamos atuar para que a juventude tenha formação criativa, inovadora, dada a velocidade e a diversidade das necessidades da Revolução 4.0 e da sociedade em que ela se movimenta e opera, alterando as formas de interação social e dos processos do mundo do trabalho. O analfabe​to do sec. 21 não será apenas aquele que não sabe ler e escrever, mas aquele que não soube desaprender e reaprender na sua experiência, efêmera e prática​. Para termos uma dimensão, o Fórum Econômico Mundial afirma que das 10 profissões mais demandadas do mundo hoje, nenhuma delas existia há 10 anos atrás e 65% das crianças que estão nas escolas atuais, vão trabalhar em empregos que ainda não existem. Quem diria, por exemplo, que “Youtuber” seria uma profissão, nos anos 90?

Investimentos no nível superior público estão sendo feitos, como é o exemplo da primeira turma de graduação em Inteligência Artificial do Brasil, que vai começar suas aulas em 2020 na Universidade Federal de Goiás (UFG).Outra ​questão a ser levantada é que esses processos estão sendo con​struídos atrav​és do chamado modelo "Triple Helix", nele há uma parceria, da iniciativa privada e do poder público, para desenvolver ciência de ponta e obrigar o curso a estar em sinergia com projetos demandados pelas duas frentes. É importante ressaltar que o Porto Digital em Pernambuco também atua com esse modelo.

É notório compreender, então, que, a pandemia foi apenas um propulsor desse debate sobre a tecnologia nas nossas vidas, onde não nos permitirá a voltar a ter a mesma dinâmica e pensar da mesma forma, pois, precisamos adotar novas formas de sobrevivência, de olhar o mundo, e o fator tecnológico é um debate fundamental e necessário em todos os setores sociais. Neste período, estamos visualizando nossas lacunas, e apontando que a tecnologia precisa ser democratizada, visando o bem estar social, onde a classe trabalhadora não sofra com o desemprego durante essa revolução tecnológica. Precisaremos reforçar o debate sobre as novas tecnologias com urgência sobretudo, nos setores da educação e na formação e qualificação para o mundo do trabalho, pois como já dizia Russo Passapusso, “o que é superficial vai ficar mais profundo” e precisaremos estar preparados.

Edição: Vanessa Gonzaga