Pernambuco

POLÍTICA

Artigo | A ameaça de ruptura democrática de um cão acuado

Como a debandada do alto comando das forças armadas revela as fragilidades do bolsonarismo institucionalizado

Brasil de Fato | Recife (PE) |
"Bolsonaro tem deixado muito claro que não tem capacidade de governar o país" - Evaristo Sá / AFP

O assunto desta semana não poderia ter sido outro, se não a troca do comando do Ministério da Defesa, que saiu das mãos do general Azedo e Silva e passou para o general Braga Netto, bem como saída do alto comando das Forças Armadas.

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Antes de qualquer coisa, é importante frisar que este comentário não visa narrar os fatos, pois as redes de comunicação independente, alternativas e tradicionais já se encarregaram desse trabalho. O que eu procuro trazer aqui é apenas uma interpretação da política institucional com base nos fatos. 

Na minha avaliação pessoal, a dança das cadeiras provocada pela reforma ministerial e a debandada dos comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica foi mais um tropicão no cambalear bêbado que é o caminhar do atual governo. A natureza autoritária de Jair Bolsonaro nunca foi segredo para ninguém, muito menos o seu desejo já tantas vezes expresso de se alçar como líder ditatorial de uma república de bananas da América Latina. Porém, considero que seja um erro acreditar que as recentes movimentações do governo signifiquem um passo em direção à ditadura neofascistóide bolsonarista. 

Queria chamar a atenção ao trecho de maior destaque da carta de demissão do General Azevedo e Silva, onde o mesmo declara que no período em que esteve à frente do Ministério da Defesa “preservou as Forças Armadas como instituição de Estado”. Alguns analistas e jornalistas políticos alardearam que aquele trecho insinuava que haviam ocorrido aproximações de natureza golpista, ou antidemocráticas entre o Governo Federal e as Forças Armadas.

Particularmente, o que me causa estranheza não é a constatação dessa informação, mas a surpresa que ela gerou no meio dos comentários políticos. Essa relação sempre esteve evidente, vide os mais de seis mil militares ocupando cargos de chefia na administração pública; ou mais de um terço das empresas públicas no país sob o comando de oficiais. Até a saída de Azevedo e Silva, oito de 22 ministérios eram ocupados por militares.

A verdade é que eles nunca tiveram tanta influência política quanto tem agora – nem mesmo durante os anos de chumbo. Mas outras questões ainda precisam ser levadas em consideração.

Bolsonaro tem deixado muito claro que não tem capacidade de governar o país e, com o fracasso monumental que foi a gestão do general Eduardo Pazuello à frente do Ministério da Saúde, boa parte do oficialato brasileiro tem demonstrado resistência a novas movimentações antidemocráticas. A ausência de um projeto político que seja minimamente consistente por parte do Governo Federal só agrava esse cenário. 

Além do mais, Bolsonaro e Guedes também têm encontrado barreiras para estabelecer diálogos junto a setores econômicos e representantes d’O Mercado, essa entidade metafísica que guia o cenário político brasileiro. Na última semana, mais de 200 economistas, banqueiros, empresários e ex-autoridades do setor público emitiram uma carta aberta ao presidente, criticando amplamente a condução das políticas de enfrentamento à Covid-19 e as políticas econômicas do Ministro da Economia, que está sendo gradativamente deixado de lado pelo meio que o pariu. Entre os nomes que assinaram o documento, estão Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles (respectivamente, o ex e o atual presidente do Banco Itaú), Affonso Celso Pastore e Pedro Malan (ambos ex-presidentes do Banco Central), entre outras figuras do meio financeiro.

Para completar, é uma ilusão pensar que Jair Bolsonaro é bem quisto por toda a elite brasileira e a falta de radicalização dessa parcela da população enfraquece profundamente qualquer possibilidade de tomada violenta do Estado, o que distancia ainda mais os militares de qualquer “aventura golpista”.

Ou seja, o que os alto oficiais fizeram ao deixar os seus postos à disposição do Ministério da Defesa, foi uma tentativa de se desvencilharem de uma parte das Forças Armadas que trazem consigo a mesma radicalização que o próprio Braga Netto carrega. Em resumo, expuseram uma racha de natureza ideológica no oficialato da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. 

Agora, é preciso levar em consideração que isso, de maneira alguma significa que os militares estão prezando pela manutenção da democracia. Como bem aponta o artigo “Os generais têm culpa e a farda está manchada de sangue”, escrito por Pedro Marin e publicado, pelo site da Revista Ópera, na última segunda-feira, existe uma forte proximidade entre a atual crise institucional e os militares, desde antes mesmo daquele famoso Tweet do General Villas Boas.

No texto, o autor traz à luz a movimentação do alto comando do exército, aliando-se ao processo de arquitetura daquilo que ficou conhecido o Golpe Parlamentar de 2016, contra a então presidente Dilma Rousseff; bem como a maneira que os militares auxiliaram na construção do governo Temer, sendo alçados ao patamar de defensores da ordem pública com a intervenção no Rio de Janeiro, que em nada resolveu a situação - intervenção essa que foi comandada pelo agora Ministro da Defesa, General Braga Netto.

Então, diante da leitura do artigo de Pedro Marin, é possível com o devido afastamento histórico dos fatos olhar para um passado recente e comparar com a situação atual, o que reafirma a ideia de que é a incompetência política e administrativa, bem como o narcisismo do próprio Bolsonaro, quando fala em “Meu Exército”, que faz com que os oficiais se afastem de um possível golpe militar. 

Ou, por ora, chefe do Executivo ignora a natureza hierárquica e igualmente narcísica dos oficiais das forças armadas, da mesma forma que busca esconder as disputas de poder que são inerentes à instituição e que agora estão expostas ao sol. 

Outro ponto que ajudar a desenhar o cenário em que estamos é restituição dos direitos políticos do ex-presidente Lula e a suspeição do seu julgamento na operação Lava Jato, que pautou o debate político entre as elites, bem como toda a narrativa pró impeachment, em 2016.  Novamente, fazendo um exercício de retorno ao passado, podemos identificar no discurso do ex-presidente Lula um tom mais conciliatório do que a costumeira fala bolsonarista, inclusive com fortes acenos a’O Mercado e ao Centrão. 

Essa tese é sustentada pelo texto “A perigosa cartada do desespero”, de Gilberto Maringoni e disponível em Outras Palavras, que comenta sobre o loteamento promovido pela reforma ministerial – uma prática antes tão criticada pelo presidente durante a campanha eleitoral, mas que agora é utilizada como estratégia de sobrevivência do governo. O texto também comenta sobre o fracasso de parlamentares ligados ao governo em tentar politizar a morte do soldado Wesley Soares, que em seu delírio suicida abriu fogo contra outros policiais militares na Bahia, expondo também certa fragilidade no processo de apropriação narrativa que o neofascismo à brasileira promove. 

O fato é que a proposta de ruptura institucional nunca esteve tão avivada e, ao mesmo tempo, tão fragilizada. Refém do Centrão, Bolsonaro e os seus tentam a todo custo garantir medidas de austeridade, ao passo que encontram barreiras na adesão dos partidos que lhes mantém prisioneiros. A única saída possível ao bolsonarismo é partilhar o Estado, fidelizando quem puder fidelizar e, ao esmo tempo, apostar na radicalização de agentes não institucionalizados, buscando dar a aparência de um poder popular inabalável – mesmo que tal aparência cultive todas as características de um delírio coletivo.   

Diante disso tudo, ouso avaliar que esse não seja necessariamente um passo em direção a uma ditadura; por outro lado, não se deve perder de vista a capacidade do bolsonarismo de reinterpretar os fatos e criar uma realidade paralela e conspiratória. Apesar do afastamento do alto comando, que deve dar o tom para o grosso dos oficiais militares, não é segredo que uma pequena parcela dos oficiais brasileiros alimenta saudades da ditadura. Mesmo em número inferior, esses homens podem sim tentar avançar um projeto de projeto golpista, que pode sim ser largamente abraçado por aqueles que compõem a base hierárquica das forças armadas. Nesse sentido, o surgimento de motins e quarteladas em algumas bases militares poderia servir para impor o caos na desordem desgovernada de um genocida.

As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do jornal

Edição: Vanessa Gonzaga