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Artigo | Todes: O que pode a linguagem não-binária?

Pesquisador discute o temor por um modo de usar a língua portuguesa ao designar às pessoas

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Gênero é uma das principais fórmulas de poder que existem - Reprodução

Era segunda-feira, 17 de maio de 2021, dia em que, mundialmente, lembramos um marco histórico no processo de despatologização das sexualidades dissidentes – a mesma data do ano de 1990, quando a Organização Mundial de Saúde retirou o termo “homossexualidade” da Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. Portanto, era o começo de uma semana de inúmeras atividades mundo à fora para marcar esse dia no calendário da luta internacional contra a LGBTIfobia. Mas um momento tão simbólico como este não poderia ficar imune ao ódio vigilante de pessoas que não admitem uma sociedade diversa que proclama liberdade a todas as formas de vida. 


Naquele mesmo dia, uma deputada estadual de Pernambuco invadiu a escola Nelson Chaves, da cidade de Camaragibe (Região Metropolitana do Recife), para, segundo ela, comprovar o objeto de uma denúncia que recebeu. Sem máscara e de celular em punho, filmando o pátio da escola, a deputada gritou como quem tem medo: “Olha você aí, pai, olha você, mãe, o que seus filhos estão aprendendo na escola”. O alvo da suposta denúncia era um cartaz erguido numa das paredes do pátio, onde se podia ler “Bem-vindes!”, o que, de acordo com a deputada, representava apenas a ponta do iceberg do que significa a prática de um processo maior de doutrinação LGBT contra a família brasileira, pois, como também  filmou, mostrando uma foto de registros de lousas da escola com os escritos “todes” e “todxs”, tratava-se, para ela, de um movimento que ameaçava a ordem e a vida das pessoas. A deputada termina a filmagem alegando que denunciou a gestora da escola ao Ministério Público de Pernambuco e à Secretaria Estadual de Educação e que estará sempre “nas ruas, lutando incansavelmente para que a linguagem neutra, esse tipo de lixo ideológico, não avance’, porque ‘isso aí é querer plantar confusão na cabeça das nossas crianças e adolescentes”.


O vídeo que compila as imagens desse momento, registradas pela própria deputada e por uma equipe que lhe acompanhava naquela investida, viralizou imediatamente na web a partir das redes dessa parlamentar e, em poucos dias, se tornou objeto de uma discussão já acalorada nos últimos tempos. Por que tanto temor por um modo de usar a língua portuguesa ao designar às pessoas, rompendo com as normas de representação tradicional de gênero, no masculino e feminino? O que há por trás dessa acusação de que palavras como “elxs” ou “todes” são parte de um processo de doutrinação de pessoas LGBT contra a preservação do que se costuma chamar de família, sobretudo nos discursos religiosos judaico-cristãos?


Gênero é uma das principais fórmulas de poder que existem. Se lembrarmos que esse é o primeiro mecanismo de atribuição de sentido sobre os corpos, vamos entender bem o que eu quero dizer. Quando nascemos, em culturas ocidentalizadas, urbanas e capitalistas, imediatamente nos dão um gênero e nos definem dentro dos universos masculino e feminino. Esse enquadramento é fruto de uma visão que herdamos séculos a fio de povos do Norte global que colonizaram boa porta do mundo, nos legando maneiras de pensar, desejar, sentir. Isso quer dizer que gênero é uma categoria que tem localização histórica e cultural, é uma atribuição convencional.

Entretanto, a força de colonização do nosso pensar advinda desses povos é tão forte que tomamos essa convenção como natural e essencial a todas as pessoas, sem distinção. Ledo engano! Muitas pessoas não se enquadram nas normas de gênero impostas por esse padrão de divisão entre masculino e feminino, uma vez que não se identificam com os modos como esses dois universos são construídos na nossa cultura. Essas pessoas, conhecidas como transgênero não-binárias – por transgredir as expectativas de gênero sem se situarem dentro da binariedade homem-mulher – não apenas existem como também buscam expressar suas identidades de várias formas, por exemplo pela língua. 


O português brasileiro é um idioma que, como muitos, marca diferentes recursos da realidade por mecanismos formais das palavras e da sintaxe entre elas, a exemplo do caso das desinências de gênero, que são partes das palavras responsáveis por, dentre outras coisas, indicar o gênero masculino ou feminino das pessoas. E isso não acontece por acaso. Afinal, se nos recordarmos que a língua portuguesa é resultado também – da mesma maneira que o gênero – de um dos povos do Norte global de onde vem parte de nosso legado cultural colonizador, facilmente concluímos que essa relação entre palavra e binariedade de gênero é útil para perpetuarmos os valores de gênero impostos secularmente pela colonialidade política desse povo. 

Rompendo com uma visão dualista da vida e consequentemente com essas formas dicotômicas da linguagem, pessoas não-binárias tentam buscar representatividade nas palavras do português que não demarcam o masculino e o feminino, como é o caso de vocábulos como “pessoa”; mas também criam outras, que são modos disruptivos do tratamento dado à binariedade de gênero. Daí surgem propostas de escrita como na forma do vocábulo “todes”, que nada mais é do que uma tentativa de não marcar gênero apenas pelas desinências tradicionais designadas ao homem (-o) e à mulher (-a), recebendo total inspiração de uma terminação que já existe na língua portuguesa, como na palavra “estudante”.


Outros modos ainda disruptivos são usos de notações como “x” e “@”, a exemplo de “todxs” e “[email protected]”, para tomar o lugar das desinências convencionais de gênero, mas de uma forma bastante iconoclasta de se designar uma pessoa não-binária. Isso porque tais notações não representam a escrita de sons vocálicos na nossa língua. É como se as pessoas não-binárias estivessem subvertendo, por uma licença de falantes da língua, o seu próprio sistema linguístico a serviço de sua representatividade. Entretanto, quando lembramos que ser pessoa não-binária é um perigo no Brasil, pais que mais mata pessoas trans por ódio à diferença de gênero, essa licença de falante da língua não está apenas a serviço da representatividade, mas também do direito à vida. 


A língua é um sistema que dá corpo a vidas. Coisas existem porque existem línguas que as nomeiam. Quando damos a conhecer algo, fazemos isso, dentre algumas formas, também pelas línguas. Se algo não tem nome ou não cabe na língua, não existe. Portanto, a licença de uso de notações disruptivas como as que eu mencionei e outras também criadas tem sido alvo de muita discordância por parte de puristas do português. Contudo, lembremos: Quem são os puristas (no masculino mesmo!) da língua portuguesa? Um grupo de pessoas que representa a classe dominante branca, masculinista, cisgênera e rica, que, por saber do valor de patrimônio que uma língua tem, tenta evitar que seu idioma se ‘suje’ com a invenção e as marcas de um povo ‘diferenciado’. Essa história a gente já conhece. 


Colocarmo-nos em apoio ao uso disruptivos da designação de gênero no português brasileiro é assumirmos uma postura includente, mesmo que ainda não haja uma pauta sonora clara para o uso de notações incomuns (isso não é problema porque criamos essa pauta quando sentimos necessidade, a exemplo do uso de “#” – hashtag – antes das muitas palavras que escrevemos nas redes) e mesmo que sistemas de audiodescrição para pessoas com deficiência visual não leiam essas escritas (isso também não é problema porque os sistemas são adaptáveis, basta termos coragem para mudá-los). Não há saída. Ou estamos do lado da linguagem não-binária em suas mais diversas vertentes, porque são todas esforços de grupos para continuarem existindo; ou somos contra e nos posicionamos não apenas rejeitando modos de escrever e falar, mas rejeitando, acima de tudo, vidas humanas já subalternizadas. 


Perceba que para não usar a designação de gênero binária, não precisamos alterar muito o nosso vocabulário. Observe que, neste texto, em nenhum momento eu me referi a pessoas em geral marcando o masculino ou feminino. Aqui eu usei palavras como “grupo”, “povo”, “pessoa”, e você entendeu que podemos fazer isso com tranquilidade, caso não queiramos usar maneiras mais subversivas, como o “x” em “todxs”. 


Em minha nova pesquisa “Deixa a minha língua lamber o que quiser. Linguagem disruptiva de gênero no Brasil”, estou abrindo o caminho para descrever todas as formas de uso não-binário e, portanto inclusivo, no português brasileiro. Eu convido você a pensar comigo em que saídas podemos dar por meio da linguagem à luta pela sobrevivência de pessoas historicamente alijadas do seu direito a viver. O caminho não é simples, mas é, com certeza, necessário.