Pernambuco

Coluna

A luta nos chama

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"Notamos a ausência de coordenação e planejamento ao combate da pandemia pelo Governo Federal" - Michael Dantas/AFP
Temos mais de 450 mil motivos que silenciosamente gritam por uma ação nossa

Ao longo de nossas histórias somos convocados para as lutas que acontecem nas ruas, nas redes sociais, nos nossos ciclos familiares,  no nosso local de trabalho, todos os dias e num piscar de olhos ou numa conversa de bar a luta nos chama... Ser militante é compreender o nosso papel na história e com isso estar sempre pronto para defender uma causa e transformar a sociedade através de nossas vozes e pulsos. 

Desde o início desta batalha contra o coronavírus, notamos a ausência de coordenação e planejamento ao combate da pandemia pelo Governo Federal que não apenas estava despreparado como também incitou a proliferação do vírus, da fome e das mortes - a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) em andamento no Senado escancara essa chaga - os estados pouco se organizaram, e a maioria dos Municípios estão colapsados.

Não por outra razão que o Agreste pernambucano é hoje o epicentro da doença em nosso estado, uma realidade triste que transparece também a falta de um plano de ação. Vale sublinhar ainda, as omissões quanto às criações de Planos Municipais de Imunização (PMI), eis que se cria uma política de “não posso” ou de “unidade executora do Plano Estadual de Imunização que usa como base o PNI”. 

Aqui em Garanhuns se amontoam os projetos de leis e requerimentos que solicitam a inclusão de diversas categorias como grupos prioritários para vacinação, o que não se efetiva, pois há um entendimento de que a competência municipal é apenas suplementar, entretanto, não há transparência no que significaria essa palavra. 

Sendo Garanhuns a nona maior cidade do estado de Pernambuco, a maior cidade da 5ª Gerência Regional de Saúde  (V GERES) e o município de referência para as cidades circunvizinhas, como se justifica que não tenhamos um Hospital Municipal em nossa cidade? Como se explica que recebemos pacientes de todos os Agrestes (Meridional, Setentrional e Central) e toda a rede hospitalar, pública e privada, contam apenas com 30 (trinta) leitos de UTI?

Nesse contexto, há praticamente duas semanas os leitos de UTIs  têm uma taxa de ocupação de 100%.  Na semana passada, os leitos de retaguarda também lotaram. Todo santo dia morre alguém aqui na cidade, um parente, um amigo, um conhecido. A morte já visitou tantas casas que já estamos ficando insensíveis e acabamos esquecendo que não são os números que crescem. São vidas, sonhos e histórias interrompidas.

No próximo dia 29 há um chamamento para tomar as ruas, afinal temos mais de 450 mil motivos que silenciosamente gritam por uma ação nossa. E se de um lado esse barulho ensurdecedor nos instiga a sair de casa e ocupar nosso lugar, de outro lado, pesamos a atual conjuntura que vivemos: queremos proteger a nossa vida e a vida dos nossos, ficando em casa.  

Essa difícil questão permeou toda minha tarde de ontem: ir ou não ir para as ruas? E a bem da verdade, não há uma escolha politicamente incorreta que não gere comentários e ataques desnecessários. Por mais que eu queira,  esse artigo não vai te dar respostas fáceis e um manual.

 O que sei é que o cerne da questão não deve ser onde você estará no dia 29M e sim que onde você estiver tenha consciência de seu papel nesse cenário de desemprego, fome, privatizações, desmontes dos nossos direitos com reformas maquiavélicas, sucateamento da Educação e do SUS, retrocessos incalculáveis, verdadeiros atentados a democracia. 

Devemos expressar nossa indignação, não só em dias de atos de mobilização nacional, mas sim todos os dias e em todos os lugares, especialmente por estamos em um tempo de guerra, um tempo sem sol. E parafraseando Brecht “se nossos inimigos dizem: A luta terminou. Nós dizemos: ela apenas começou”.

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do jornal

Edição: Vanessa Gonzaga