Pernambuco

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No mês do orgulho, à luta

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Ser referência em um dos países mais lgbtfóbicos acarretam em ônus e bônus. - Divulgação
Romper as estruturas é o caminho trilhado pelos mandatos que têm ocupado o poder institucional

Entendendo como se estruturou o nosso país desde o Brasil colônia, posso afirmar que os colonizadores que nos invadiram através da violência, genocídio e passaram a ocupar todos os espaços institucionais não cogitariam que uma bicha preta que veio da periferia representaria, em qualquer tempo da história, a luta coletiva na câmara mais antiga do Brasil.

É importante que saibamos como se formaram esses espaços, dominados em outrora pelos senhores de engenho, advindos da Europa e com um projeto colonial, excludente e elitizado. Estamos em Olinda, uma das cidades mais antigas do nosso País. Com 486 anos, fundada em 1535 pelos portugueses e, apesar de histórica, cultural e da efervescência da população completamente única, ainda preserva em sua representação os resquícios coloniais que não só nos atinge como também faz perceber que o problema é muito mais profundo quando analisamos todas as câmaras espalhadas Brasil afora.

Romper as estruturas é um caminho trilhado pelos diversos mandatos que neste século têm adentrado o poder institucional. São corpos lgbtq+ que desafiam o sistema ao reafirmar a existência e o apoio de toda uma comunidade. Entretanto, ser referência em um dos países mais lgbtfóbicos acarretam em ônus e bônus.

No Brasil atual, aliás, todos os mandatos representados pelas pessoas trans receberam ameaças de morte. Parlamentares que são silenciadas, discriminadas, ameaçadas. A coragem e o medo são dois dos sentimentos que mais se fazem presentes em quem fala em nome da diversidade - diversidade essa que não é apenas sexual ou de gênero, mas social.

Nós somos constantemente realocados na pauta lgbtq mesmo quando falamos sobre pessoas negras, mulheres, pessoas com deficiência, direito à cidade, humanidade, criança e adolescente e tantas outras temáticas transversais. É o reflexo do estigma em lidar com quem reivindica esse espaço. São visões preconceituosas que nos limitam e ignoram todo o conteúdo que temos para além das nossas vivências. Estão, na verdade, mais interessados que nos calemos, o que não é sequer uma opção.

No mês do orgulho lgbtq, posso afirmar que hoje temos um mandato que se afirma e pauta as lutas da nossa comunidade na primeira câmara do Brasil. Mas que deixemos claro que chegar sozinho não basta, é importante trazer os nossos, não obstante temos todas as siglas representadas no mandato para que saibam que somos plurais. A nossa luta é por respeito, direitos e equidade. Não há mais tempo para tolerar a intolerância. Não podemos mais regredir nem normalizar a violência.

Que saibamos que o Brasil do agora, do fascismo, da miséria e desesperança só mudará quando passarmos a potencializar a diversidade. Não podemos mais proliferar rostos, propostas e ideias de quem não mais representem a pluralidade social. Existe a necessidade de reforçar os ideias democráticos e a representação é um dos primeiros passos para que avancemos nessa perspectiva.

Chegará o dia, caro leitor, que não mais seremos vistos como parlamentes lgbtq, mas sim como parlamentares. Por hoje, que reforcemos o avanço de quem luta constantemente com sua força e sua vida por um Brasil mais justo, digno e seguro.

Que ocupemos todos os espaços não ocupados. Que transformemos as exceções em regra. Que nos fortaleçamos e nos apoiemos em busca do bem comum. Que gritemos nos 4 cantos do mundo que nos  orgulhamos de sermos quem somos. Que não abaixemos a cabeça pros que não nos querem falando sobre nós. Nós avançaremos. Por nós. Com orgulho.

Edição: Vinícius Sobreira