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Educação como prática do diálogo

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Em 2021 se completa 100 anos desde o nascimento do educador Paulo Freire - Reprodução
As práticas educativas devem infundir nas pessoas valores altruístas e gestos solidários

Neste próximo domingo, celebraremos a data em que o grande Paulo Freire completaria 100 anos. A ONU instituiu o 08 de setembro como dia internacional da alfabetização. Por isso, nestes dias, no mundo inteiro, a sociedade civil internacional se viu envolvida pelos novos desafios de uma educação para todas as pessoas e a busca de novos meios para erradicar o analfabetismo. 

Conforme cálculos da ONU, em todo o mundo, o analfabetismo absoluto diminuiu, mas ainda persiste um número grande de analfabetos/as funcionais. Uma pesquisa revelou que, na cidade de São Paulo, 17% dos/das jovens entre 15 e 24 anos não conseguem ler placas e avisos de uma estação rodoviária ou de Metrô e não conseguem preencher dados para uma ficha de emprego. 

Isso nos faz recordar o imenso legado de Paulo Freire, com o seu método revolucionário de alfabetização de adultos e suas propostas novas de educação. Ele nos ensinou que a educação é o processo que nos torna mais humanos. Alfabetizar não é apenas ensinar a ler, mas possibilitar a todas as pessoas a participação cidadã e crítica na sociedade. 

É verdade que nascemos autocentrados/as. Crescemos sob a influência de tendências nocivas que satisfazem o nosso ego. Essas tendem a nos imobilizar quando se trata de correr riscos e abrir mão de prestígio, poder e dinheiro. Daí a necessidade de uma educação profunda da consciência e da sensibilidade das pessoas e das coletividades. As práticas educativas devem infundir nas pessoas valores altruístas, gestos solidários e ideais sociais. Só assim, a vida ganha sentido e as relações humanas se tornam verdadeira comunicação. 

Conforme Paulo Freire, a educação só cumpre sua função quando forma seres humanos mais felizes, dotados de consciência crítica e capazes de aprimorar os sistemas sociais e políticos no sentido do amor solidário, da igualdade social e da justiça. 

Caminhar nesse sentido implica vencer alguns desafios da atual conjuntura. O primeiro deles é superar o avassalador processo neoliberal de desistorização da história. Sem perspectiva histórica não há consciência nem projetos políticos. O filósofo alemão Theodor Adorno afirmava que o desafio mais urgente da educação é desbarbarizar a sociedade. Ele compreendia por barbárie uma sociedade que, de um lado, se encontra em um alto grau de desenvolvimento tecnológico e, do outro, mantém as pessoas privadas de viver e expressar a sua dignidade humana. 

Paulo Freire afirmava que somente a educação não pode mudar a sociedade, mas, ao mesmo tempo, nenhuma sociedade mudará sem que a educação desempenhe um papel fundamental. E nessa educação humanitária e libertadora, o diálogo é o elemento fundamental.

Diálogo não é qualquer tipo de comunicação. Não é apenas uma troca de opiniões e menos ainda um debate. É uma relação entre pessoas que se colocam em atitude de escuta mútua para buscar juntas a verdade. Assim sendo, o diálogo inclui uma dimensão interior: o diálogo consigo mesmo. Ele se realiza mais profundamente no encontro amoroso com as outras pessoas e é também postura de abertura e comunhão com a natureza e o cosmos. Para quem tem fé, tudo isso compõe o diálogo com o mistério que as religiões chamam de Deus. Rubem Alves, grande educador que nos deixou recentemente, afirmava: “Educar é mais difícil do que ensinar. Para ensinar, basta saber. Para educar, precisa ser”.

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do jornal

Edição: Vanessa Gonzaga