Pernambuco

Coluna

Seria o abandono social um delírio?

Imagem de perfil do Colunistaesd

Ouça o áudio:

"São histórias de gente esquecida, aqueles considerados como descartáveis" - Divulgação
O somatório de invisibilidade e abandono mata!

No mês de dezembro de 2021, a notícia de que o órgão do Ministério da Saúde sugeriu a possibilidade de “tratar” pessoas com Transtorno do Espectro Autista com eletrochoque, dispondo para consulta pública a intenção, fez com que eu fosse envolvida na reflexão incômoda acerca do abandono. Por isso, resolvi dedicar as próximas três colunas à temática. 

Apesar de ter plena convicção das diferenças que separam os transtornos mentais e as deficiências, tenho refletido cada vez mais sobre a necessidade de pensar o que os aproximam, ressaltando que não relaciono tais semelhanças com as questões cognitivas e de intelecto, mas sim a uma história de genocídio, holocausto, prisão e ódio, na qual o sistema em sua lógica de Estado suja suas mãos de sangue seguindo seu projeto de morte, justificando-o a partir da naturalizada ideia de que “nada pode ser feito”. 

Embora aprofundar o assunto não seja a minha intenção neste espaço, acredito que um bom começo é deixar de lado a nomenclatura “pacientes” ou “deficientes” e começar a trazer memórias através de nomes e, com eles, suas histórias. 

Algumas delas li no livro “Holocausto Brasileiro” de Daniela Arbex, outras, eu mesma presenciei em experiências da vida. Um ponto em comum entre todas: são histórias de gente esquecida, aqueles considerados como descartáveis e que na categoria humanidade, estão ou estiveram longe de alguma relação de ética e respeito.

No livro supracitado, encontrei narrativas ocorridas entre 1903 - 1970, no Hospital Colônia de Barbacena (MG), entre elas, a história de Maria de Jesus, internada por se sentir triste. Antônio da Silva, porque era epilético. Antônio Gomes, sem diagnóstico, ficou vinte e um dos trinta e quatro anos mudo porque ninguém perguntou se ele falava. As centenas de histórias dos meninos de Oliveira (MG), os quais possuíam deficiência física ou intelectual que, acometidos pela vergonha dos pais, eram jogados em um depósito chamado Hospital de Neuropsiquiatria Infantil de Oliveira.

Em 2019, ao visitar um lar de adoção localizado no estado de Pernambuco conheci Pedro, abandonado quando criança aos seis anos, morreu ainda na instituição, aos 31. Ao conversar comigo, Pedro chorava dizendo que sentia saudade do “pai” que o deixou porque era cego e também possuía deficiência física. Rafael e Victor, bebês gêmeos, deixados na mesma casa, adotados uma vez e, seguidamente devolvidos após diagnóstico de Deficiência Intelectual. 

Ao averiguar alguns documentos fiquei sabendo que o número de adoção de crianças com deficiência na instituição, em quase 30 anos de funcionamento, era de apenas 9 pessoas. Nos documentos do local estavam registrados que após a epidemia do Zika vírus cresceu em 40% o número de abandono de crianças com algum tipo de deficiência. 

As vidas dos esquecidos, dos confinados, se cruzam entre as idas e vindas ao longo das histórias sobre encarceramentos/depósitos, na justificativa de tratar o que a sociedade entende como “alienados”, os quais apontados como sinônimo da desordem social sobrevivem (ou não) ao delírio dos considerados normais. 

A alienação sobre normatividade me parece tão complexa, no sentido perverso da interpretação que, segundo a lógica, é normal e permitido ver gente deitada na rua, nu, comendo lixo, ou colocadas em lugares para que as relações sociais lhes sejam privadas, mas é proibido o protesto, qualquer que seja a forma, a começar da falta de validade legal das denúncias daqueles considerados como “legitimamente incapazes”. 

É preciso resgatar os que ameaçam a ordem pública, porque é justamente esta que precisa ser questionada. O abandono não tem sido devidamente tratado como uma questão de injustiça social, na maioria dos casos ele apenas serve de pretexto para justificar e dar margem às ações de caridade como uma "prática dos bons” que estendem as mãos aos “dignos de pena”.

Estamos diante de um grave problema social, político e histórico de invisibilidade. Essa é a questão central e que deveria ser lembrada todos os dias: o somatório de invisibilidade e abandono mata! Mas, ao que parece, a normalidade se debruça em apontar comportamentos estipulados como “insanos” e tem por tratamento a permissividade para a rejeição e sofrimentos físicos e psicológicos omitidos pelo cárcere. 

É assustador e ilógico o fato de se isolar e/ou excluir pessoas diante da justificativa de que elas podem cometer algum tipo de dano a si, mas, em contrapartida, ser legitimado feri-las de todas as formas através do aval de uma lógica de sistema. No final das contas, as únicas mazelas que consigo enxergar aqui são a da eugenia.

Lima Barreto, em uma narrativa extremamente lúcida, no livro “O diário do hospício” relata o amanhecer diante das grades do manicômio: “Aí é que percebi que ficava e onde, na seção de indigentes, aquela em que a imagem do que a desgraça pode sobre a vida dos homens é mais formidável [...] Através das grades dos manicômios, quando amanhecemos lembramos que não sabemos mais sonhar”. 

Denunciar é uma maneira de nomear e transformar em memória. E quando falo em denúncia, alerto que minha finalidade não é anunciar que a escrita desse texto se trata disso.

 Para além desse movimento, a denúncia vem da boca, mãos e afetos dos banalizados, cuja existência é apresentada de maneira medíocre, “dignos” de caridade, mas não de direitos, inclusive os de sentir. Aqueles que a mesquinhez tentou apagar, mas que a memória insiste em resistir, criar e recontar diante dos escombros da dor. Os esquecidos lembram o que insiste em ser apagado. 

Por fim, só nos resta alavancar a pergunta narrada por Machado de Assis em sua obra “O Alienista”: “se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?”.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato Pernambuco.

Edição: Vanessa Gonzaga