Minas Gerais

PRESERVAÇÃO

Movimento quer construção de parque na Mata da Izidora, em Belo Horizonte (MG)

Território rico em biodiversidade resiste ao avanço imobiliário e à degradação

Belo Horizonte (MG) | Brasil de Fato MG |
Os defensores da criação do parque acreditam que a medida seria benéfica tanto para a preservação da fauna e da flora quanto para a qualidade de vida da população do entorno - Divulgação Movimento Parque Izidora

Uma área na capital mineira, equivalente a 10 mil campos de futebol, com quase 300 nascentes, mais de 60 córregos e uma rica diversidade de fauna e flora, pode ganhar um parque. Esse é objetivo do Movimento Parque Izidora, que busca avançar na proteção da Mata da Izidora, transformando-a em uma unidade de conservação. 

Resistindo ao avanço imobiliário, o território é uma das poucas áreas de Belo Horizonte não tomada pelas grandes construções. A maior parte do terreno é classificado pelo município como Área de Preservação PA-1, de maior nível de proteção. 

O Plano Diretor, aprovado em 2019, determina que territórios classificados dessa forma podem receber serviço de apoio e de manutenção das áreas, equipamentos de cultura, de lazer, de esportes e destinados a práticas ambientais.

Porém, na avaliação de Márcia Rodrigues Marques, coordenadora do Instituto Guaicuy e do Projeto Manuelzão, a legislação não tem sido suficiente para garantir a preservação do local. “É mais um dos casos em que o poder público reconhece a importância ambiental, mas não legitima o que está no Plano Diretor. Assim como a Mata do Havaí e a do Planalto”, enfatiza. 

O resultado disso faz com que a Mata da Izidora conviva com práticas que contribuem para a degradação do terreno. “Por não ser uma área protegida oficialmente, há usos que degradam. Sempre tem alguém que vai lá e coloca fogo. E as bordas viram áreas de bota-fora”, explica Tulaci Bhakti, membro do Movimento Parque Izidora. 

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Dificuldades de acesso, caça ilegal, falta de iluminação e pouca segurança também trazem preocupações à população do entorno da mata. É o que conta Robson Cardoso, coordenador da Casa de Francisco, projeto ecológico da Arquidiocese de Belo Horizonte, que ocupa a maior área de proteção da mata. 

“Tudo isso faz com que o lugar se torne uma referência negativa. O território merece ser restaurado, porque tem muito a oferecer de potencial positivo”, aponta. 

Luta contra o tempo

Como forma de ocupar o território e conscientizar a população sobre a sua importância, o movimento organiza caminhadas na mata, produz cartilhas, participa de programas de rádio, divulga materiais nas redes sociais e oferecem palestras. 

Tulaci caracteriza essa movimentação como uma “luta contra o tempo”, pois, apesar dos esforços coletivos, a mata já não é mais a mesma de quando ele era criança. 

“Qualquer morador dessa região tem na memória a área verde que já foi e o que ela é hoje. As pessoas sentem o quanto afeta o clima, o local e as águas. A gente tenta levar por essa questão afetiva e trazer todo mundo para dentro do movimento”, explica. 

Cuitelão: símbolo da resistência

Ameaçado de extinção, o cuitelão é símbolo do Movimento Parque Izidora. O motivo da homenagem é que até o ano de 2013 existia apenas um registro da ave em Belo Horizonte. Porém, em 2020, um dos membros do movimento viu o pássaro na mata. 

“Eu tive a sorte de fazer a segunda fotografia do cuitelão em Belo Horizonte, mostrando que, mesmo ameaçada, a ave encontra refúgio e sobrevivência na Mata da Izidora”, conta Cleiton Henriques ao Brasil de Fato MG.


O cuitelão é símbolo do Movimento Parque Izidora, até o ano de 2013 existia apenas um registro da ave em BH. Porém, em 2020, um dos membros viu o pássaro na mata. / Movimento Parque Izidora

Parque seria bom para mata e para a população

Os defensores da criação do parque acreditam que a medida seria benéfica tanto para a preservação da fauna e da flora quanto para a qualidade de vida da população do entorno. O movimento avalia que é necessário delimitar a área e implementar uma equipe que estruture, oriente e cuide do território.

“Os parques ajudam na manutenção da saúde física e mental, pois ajudam na manutenção da qualidade do ar, em função da filtragem feita pelas plantas, criam espaços de confraternização, de exercícios físicos, de meditação e de relaxamento”, explica Márcia, do Guaicuy. 

Desafios

Além das ações de conscientização, o Movimento Parque Izidora aposta no diálogo com o poder público para a criação do parque. 

Em reuniões com secretarias municipais e a Prefeitura de Belo Horizonte, os membros do movimento têm apresentado a realidade do território. Porém, afirmam que as instâncias do executivo dizem não possuir o orçamento necessário para a implementação da proposta. 

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“A luta pela natureza não deveria nem existir. Se tem a área de proteção, já existem justificativas suficientes para falar que essa área precisa ser protegida. Mas, ao contrário disso, BH tem dezenas de grupos lutando por parques diferentes. O desafio é esse”, conclui Cleiton. 

Em nota a Brasil de Fato MG, a Prefeitura de Belo Horizonte reforçou que, “até o momento, não há previsão para implantação do parque dentro da lei orçamentária do município”. Entretanto, a prefeitura “se mantém disponível para estudar a possibilidade e discuti-la com a comunidade e outros setores”.

 

Edição: Larissa Costa