RELIGIÃO

Vozes Populares | Pastor evangélico fala da importância do diálogo inter-religioso

Edição entrevista o pastor Paulo César Pereira, mestre em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco

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Pastor pontua a necessidade de incentivar fiéis evangélicos quanto ao diálogo e ao respeito às outras formas de culto - Foto: Ateliê 15
A religião deveria ser esse caminho para juntar, aproximar e buscar um mundo melhor

Janeiro é o mês do combate à intolerância religiosa. Para tratar sobre esse tema, o Vozes Populares tem convidado lideranças de diferentes crenças para abrirmos o debate sobre a liberdade ao culto

Nesta edição, o convidado é Paulo César Pereira, pastor batista, mestre em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco, membro do Fórum Diálogos e militante em comunidades periféricas de Olinda. No sul do Piauí, Paulo se iniciou na vida religiosa, aos 13 anos de idade, em uma igreja histórica e bastante tradicional. Ao mudar para o Recife, o pastor conta que sua mente abriu para outras possibilidades de vivências religiosas. Possibilidades essas que o fazem enxergar beleza no diferente. 

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Enquanto religiões de matriz africana são os principais alvos de ataques de intolerância religiosa, o agressor está frequentemente ligado a igrejas evangélicas. É o que mostra um relatório da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro. Para Paulo, pastor protestante, isso mostra que as igrejas evangélicas têm exercido um papel inverso ao que deveriam exercer. 

"Eu imagino que as igrejas evangélicas deveriam ter como parâmetro o pensamento, a prática e a vivência de Jesus Cristo e aquilo que ele deixou no evangelho, que foi sempre o acolhimento, o apoio, o "andar com", mas o que nós percebemos na caminhada e na vivência dos evangélicos na atualidade é uma não-aceitação pelo que lhes é diverso", relata.

Ele também condena os casos de ataques à religiões de matrizes africanas. "Não é à toa que nós vemos pessoas que fazem a prática do culto de origem africana serem combatidos, terem seus lugares sagrados invadidos, seus líderes religiosos serem perseguidos, e isso certamente não é um ensino cristão, um ensino evangélico. 


Denominações são grupos de igrejas que atuam em redes. Há ainda uma infinidade de igrejas evangélicas sem vínculo nenhum com uma ou outra denominação. / Foto: Igor Sperotto 

Ao falar sobre caminhos para que esse cenário violento possa mudar, o pastor Paulo aponta a importância do diálogo inter-religioso e da responsabilização de quem comete o ato intolerante. "Eu penso que a pessoa que não é disposta a dialogar, tem em si mesmo uma tendência para uma ditadura. O diálogo é o caminho para quebrar essas estruturas que separam as pessoas. A religião deveria ser esse caminho para juntar, aproximar e buscar um mundo melhor. A imposição nunca é positiva, sempre será destrutiva", enfatiza.

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O pastor aponta que a raiz da questão está nas lideranças religiosas, que possuem influência sobre toda uma comunidade. Contudo, segundo ele, muitos líderes buscam um proveito próprio, seja ele um projeto de poder, um projeto político ou projeto financeiro. É isso que deve ser combatido. 

"Os líderes religiosos têm que ser chamados à razão, e eles têm que ser cobrados também, seja pelas próprias instituições, pela própria sociedade ou pela justiça. Se alguém pratica um ato de intolerância, ele tem que pagar por aquilo. Ele não pode só dizer que é uma questão de fé. A questão da humanidade é maior que nossa questão de fé, deve ser". 

Por fim, o pastor Paulo César defende que há beleza no diverso e reforça que é saudável existirem outras maneiras de culto. Não há apenas uma forma de ser um ser cristão ou um ser religioso. 

Para ouvir a edição, clique no áudio no início desta matéria. 

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Edição: Vanessa Gonzaga