Pernambuco

CARNAVAL NO SERTÃO

Carnaval do Sertão pernambucano preserva tradição e abre espaço para artistas contemporâneos

Em Triunfo, os Caretas mantém viva a cultura popular; Petrolina valoriza cena alternativa em Polo Multicultural

Brasil de Fato | Petrolina (PE) |
Grupos de Caretas se organizam desde dezembro de 2022 para o carnaval deste ano - Foto: Reprodução/Sesc Pernambuco

Durante o carnaval, o estado de Pernambuco é pura alegria e fervor. Não se restringindo às famosas ladeiras de Olinda e aos agitados bloquinhos do Recife, a festa se espalha por toda a região, incluindo os municípios do interior. Nestas cidades, é possível encontrar carnavais singulares, que misturam tradição e novas formas de aproveitar esta festa popular tão amada pelos brasileiros.

Com a retomada das festividades carnavalescas após a pandemia, cada cidade tem preparado sua programação para reunir uma multidão de foliões. Cidades como Petrolina e Triunfo, no Sertão do estado, prometem trazer eventos para todos os gostos, com música, dança e a celebração da cultura pernambucana. 

Os Caretas de Triunfo: herança cultural que agita o Sertão do Pajeú 

A 405 km da capital pernambucana, está Triunfo, no Sertão do Pajeú. A cidade se destaca pelos Caretas, uma herança cultural que tem protagonismo durante todo o carnaval. Vestidos com trajes coloridos, grandes chapéus e máscaras com expressões fortes, os participantes dançam pelas ruas da cidade ao som de ritmos locais. A tradição, que remonta ao século XIX, é uma das principais marcas culturais da região. 

Para não passarem despercebidos, os Caretas usam acessórios como o 'relho', um chicote com som estridente, e a 'tabuleta', um chocalho pendurado em uma tábua de madeira. Dessa forma, eles interagem com moradores e turistas, proporcionando uma experiência única e divertida. Esses grupos são conhecidos como 'treca'.


Personagem do careta passou a ter maior relevância quando passou a interagir com a população / Foto: Divulgação/Treca Alto Astral

No bairro do Alto da Boa Vista, conhecido por sua importância cultural para a cidade, surge a Treca Alto Astral, sob o comando do experiente Mestre Nino Abraão. Ele carrega a tradição desde seus 10 anos de idade. Hoje, liderando o grupo, Mestre Nino tem a companhia de seus três filhos como integrantes. 

"A cultura do careta é hereditária. Os mais jovens observam seus pais, tios e adultos da comunidade participando, e logo se interessam em seguir o mesmo caminho", afirma Wesley Allef, conhecido como Lêu do Alto. Filho do Mestre Nino e integrante da treca, Lêu do Alto iniciou sua jornada aos seis anos de idade.

Para ele, carregar esse legado é gratificante. "É ter uma chance de fazer parte da história. Daqui a 100 anos, alguém vai tocar no meu nome e dos outros integrantes. Só de saber que a gente tá inspirando os mais jovens a começarem na vida do careta e levar adiante, já é muito gratificante", afirma. 

Para quem vive a festividade popular desde o berço, o momento é esperado com ansiedade. Bruna Florie, formada em teatro pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), arte-educadora e brincante na cidade de Triunfo, é uma das foliãs que não perdem um carnaval. "Cresci no meio dos Caretas, das Veinhas, das Cambindas, de todas essas referências da cultura popular triunfense. Me identifico com a cultura, gosto de preparar fantasia, gosto de desfilar... é um momento em que a gente confraterniza", relata. 


Foliã cresceu no Alto da Boa Vista, polo cultural da cidade / Foto: Arquivo Pessoal/Bruna Florie

Do mesmo modo, Daiane Viana, de 25 anos, sente orgulho da cultura triunfense. “Modéstia à parte, o Carnaval de Triunfo é muito gostoso de se comemorar. Quem vem de fora, ama. Quem está dentro, não quer perder nenhum ano”. Ela também tem contato com os caretas desde pequena, além de ressaltar que essa parte cultural é evidenciada sempre, seja nas escolas ou em festivais. “Eu amo, morro de orgulho, acompanho sempre que posso”, conta, empolgada. 


No município, é comum que todos saiam de "careta" nas ruas / Foto: Arquivo Pessoal/Daiane Viana

A preparação para o Carnaval de 2023 começou em dezembro do ano passado e, até os últimos minutos, estava intensa. As trecas já estão presentes nas ruas desde esta sexta-feira (17), no Bloco da Galinha, e prometem agitar até o último dia de festa. “Sempre tem careta na rua”, finaliza Lêu do Alto.  

Petrolina: Polo Multicultural para valorizar artistas independentes 

Em Petrolina, também no Sertão, a festa acontece até o dia 21 de fevereiro. Para atender a todos os gostos, a Prefeitura de Petrolina oferece três polos: Orla, 21 de Setembro e Multicultural. Ao todo, são mais de 60 atrações, entre artistas e blocos. 

Os três polos contam com estilos musicais diferentes. O Polo Orla, geralmente, é voltado para o público que gosta de axé, pagode e samba. Já o Polo 21, é conhecido por ter uma programação mais voltada para o frevo e o maracatu, além de outras manifestações culturais típicas do Carnaval pernambucano. Por fim, o Polo Multicultural traz uma diversidade de ritmos e inclui rock, eletrônico, pop, reggae e é destinado para um público mais alternativo. 

Esse último polo se destaca, também, por ser um espaço fundamental para a valorização da cena musical independente no Vale do São Francisco. Dentre os três, é o mais recente. Mirielle Cajuhy, artista e foliã, afirma que esse é seu ponto preferido. “Realmente fazia falta um palco alternativo. A gente tinha grandes atrações, mas não tinha um espaço para trazer uma proposta diferente, com artistas de outros gêneros musicais, independentes, de bandas daqui do Vale”, conta. 

Desde que o polo foi implementado, a artista marca presença enquanto espectadora. "Eu vou muito no sentido de prestigiar meus colegas de profissão e para dar esse apoio a cena alternativa e cultural daqui". Além disso, afirma ser um lugar onde possui memórias boas e onde espera construir novas experiências. "É o carnaval que mais se encaixa com o que eu gosto de curtir". 

Um carnaval para todos 


Baixista da Trupe afirma que irão trazer a ciranda, o São Gonçalo e os Cocos em show no Polo Multicultural / Foto: Vanessa Martinez Lima

Entre os artistas que se apresentam, está a banda Trupe Poligodélica. Formada por integrantes que vivem entre Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), o grupo existe desde 2017 - passando por formações distintas até chegar na atual. 

Com referências da Música Popular Brasileira (MBP), do rock, da psicodelia e dos anos 70, a Trupe faz um mix de sonoridades e mistura essas influências com o que é regional. Foi essa singularidade que concedeu à banda o 2º lugar em uma das edições do Festival Nacional Edésio Santos da Canção. 

Neste ano, o grupo se apresenta pela primeira vez no Polo Multicultural. Álvin Soares, baixista da Trupe, afirma que, mesmo com gêneros diferentes do tradicional, a banda se conecta com a festa popular. “O carnaval é um lugar para todos. Ele é muito conhecido pelos ritmos que já rolam sempre, mas é importante construir um carnaval que seja diverso, que todo mundo se sinta em casa", defende. 

Quem também marca presença no primeiro dia de carnaval oficial é a cantora e compositora Camila Yasmini, por sua vez, já participou de vários carnavais na região. Petrolinense, ela afirma que fazer um show em casa representa muito para ela. "As pessoas podem esperar muita alegria, muita dança, muito sorriso e muito calor", garante.


Para a artista Andrezza Santos, carnaval é momento de transbordar / Foto: Fernando Pereira

Além destes, se apresenta também a multiartista Andrezza Santos. Paulista, a cantora e compositora afirma ter "renascido" no Vale do São Francisco, onde vive há oito anos e tem feito sua carreira. Em seu trabalho, Andrezza dialoga com o neotropicalismo e também preza pela mistura de ritmos. 

Desde 2017, a artista faz participações nos carnavais das duas cidades, sem perder a empolgação. "Eu estou muito feliz. Dentre o nosso calendário, o carnaval é a festa que eu mais gosto. Não só de curtir, mas principalmente de trabalhar", conta. 

Para esta edição, ela garante que o público pode esperar o melhor da artista. "Eu me preocupo muito com a experiência do show. Sem o público, isso não é possível. Eu não sou uma artista que está apresentando para pessoas, eu sou uma artista que faz com que o público seja protagonista tanto quanto eu", finaliza.

Edição: Elen Carvalho