Rio Grande do Sul

LUTA ANTIRRACISTA

Movimento Negro Unificado elege nova coordenação para a gestão no RS

Matheus Gomes foi indicado para compor a chapa majoritária de unidade dos partidos de esquerda na capital gaúcha

Brasil de Fato | Porto Alegre |
Nova coordenação estadual do MNU é composta por Ângela Maria Souza de Lima (E), Sandralí de Campos Bueno, Vera Lúcia Goulart da Rosa, Catiana Leite Nunes e Márcio Luís R. de Oliveira - Foto: arquivo da entidade

O Movimento Negro Unificado do Rio Grande do Sul (MNU/RS) elegeu sua nova coordenação em uma assembleia estadual realizada na manhã deste sábado (30). A nova coordenação atuará no biênio 2023/2025, com a presença de filiados de diversas regiões do estado.

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Além da eleição, a reunião que ocorreu no auditório do Sindipolo - Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Petroquímicas de Porto Alegre e Triunfo/RS, contou com debates voltados para a análise de conjuntura dos últimos anos, da crise econômica, sanitária e política, que atinge de maneira mais forte e cruel a população negra.

Segundo Luiz Felipe de Oliveira Teixeira, que entrega o cargo de coordenador estadual da entidade, a assembleia foi muito importante, não apenas por ocorrer no ano em que a organização completou 45 anos em atividade ininterrupta desde 1978. “Mas, por se dar após um período muito difícil para o povo negro, em razão de uma violenta crise econômica, sanitária da covid-19 e avanço de políticas neofascistas que atingiram violentamente negros e negras, mas o MNU superou com muita força e luta de sua militância e atuação da coordenação estadual em diferentes espaços”, afirma.

Ainda, foi reafirmada pela assembleia a necessidade de cada vez mais de se colocar na centralidade do debate político questões que atingem violentamente a população negra. Como a busca da plena implementação da Lei 10.639/2003, a luta pela descriminalização das drogas, do aborto e a revisão da reforma da Previdência, trabalhista e da flexibilização da terceirização.

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Para Sandralí de Campos Bueno, reconhecida em sua vivência como Ìyá Sandralí de Oxum, eleita para a nova coordenação estadual, a importância dessa eleição se dá por dois fatos. “Primeiro a capacidade do diálogo entre os campos políticos que compõe o MNU do Rio Grande do Sul no sentido de buscar a unidade na luta antirracista. Segundo o avanço que embasou nossas deliberações enquanto organização política e referência para reafirmar a importância da construção de um projeto político do e para o povo preto que se anuncie como emancipação dos ditames de uma sociedade supremacista, discriminatória e violenta onde o Estado atua como demarcador de privilégios estruturalmente construídos como instrumentos de poder sustentados pelo patriarcado e resquícios escravocratas que se retroalimentam, de acordo com Cida Bento, no 'pacto narcísico da branquitude'", comenta.

“Espero que o Movimento Negro Unificado possa ser o que ele é, ou seja, a maior organização negra da América Latina no combate ao racismo desde sua criação há 45 anos e, portanto, espero que retorne a si mesma como uma Sankofa e projete o futuro da sociedade brasileira com centralidade no combate ao racismo e de todas as discriminações”, destaca. 


Durante a assembleia estadual foi realizada a filiação de novos militantes da entidade / Foto: MNU

A nova coordenadora aponta o caráter do MNU de organização política de luta pelo povo negro, de viés de esquerda, anticapitalista e Pan Africanista. “Através da construção de um projeto político que rompa com o paradigma da supremacia branca e reconheça que a diversidade e o diálogo são as ferramentas a serem utilizadas na produção de estratégias para eliminar as desigualdades socialmente construídas e que até então impedem que o Brasil seja uma Nação. E isto não é diferente no estado do Rio Grande do Sul.”

Sandralí diz que encara essa nova gestão com muitos desafios no sentido de "reafirmar a nossa carta de princípios e renovando nosso jeito de fazer política enquanto movimento social sem deixar que as subjetividades superem a coletividade". Segundo ela, o MNU se pauta pela coletividade e pela radicalidade democrática que se oriunda nos princípios e valores da ancestralidade africana e afro diaspórica, portanto, "não espere nada menos do que uma gestão onde o melhor de cada pessoa esteja colocada à disposição do coletivo”.

Nova coordenação

A nova coordenação para a gestão 2023 – 2025 foi eleita em chapa única, por aclamação, após um longo processo de debates durante todo o mês de setembro. A assembleia foi conduzida pelo coordenador estadual, Luiz Felipe de Oliveira Teixeira, e pela presidenta da Comissão Eleitoral, Cláudia Dutra. 

A coordenação geral ficou a cargo de Sandralí de Campos Bueno, Mãe de santo da Comunidade de Terreiro Sociedade Afrobrasileira "Ìlé Àiyé Orishá Yemanjá", em Pelotas (RS), que é psicóloga e especialista em Criminologia. Junto dela, a secretária Vera Lúcia Goulart da Rosa, servidora do Sindserf e graduanda em Ciências Sociais na Ufrgs. Como coordenadora de Finanças foi escolhida Ângela Maria Souza de Lima, de Santa Maria, especialista em Saúde Mental e coordenadora do Coletivo Marias Bonitas Fazendo História, além de representante no Conselho Estadual dos Direitos das Mulheres/RS. Também integrará a coordenação como coordenador de Formação, Márcio Luís R. de Oliveira, de Porto Alegre, e como coordenadora de Comunicação, Catiana Leite Nunes de Alvorada.

Candidaturas negras e indicação de Matheus Gomes

Entre outras deliberações, o coletivo decidiu reforçar a luta pelas candidaturas negras, não apenas no avanço de negras e negros nos espaços de poder político, mas também o combate ao discurso discriminatório de que as bancadas negras eleitas são apenas uma “onda”.

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Para tal, foi aprovado o encaminhamento aos partidos políticos de esquerda à indicação do filiado do MNU, deputado estadual Matheus Gomes (PSOL) para compor a chapa majoritária nas eleições de 2024 para a Prefeitura de Porto Alegre. 

Ao lado da Bancada Negra, Matheus fez 82.401 mil votos nas ultimas eleições, sendo mais de 52 mil em Porto Alegre. Foi o parlamentar mais votado da Capital. Para o MNU é incontestável que os partidos de esquerda entendam o momento antirracista no Brasil e Matheus Gomes é a novidade que Porto Alegre precisa. Conforme a entidade, o parlamentar é a renovação, a atenção com os mais necessitados, além da possibilidade de Porto Alegre voltar a ser a cidade da democracia, da diversidade e da inclusão.


Edição: Katia Marko